sábado, 1 de maio de 2021

Tofu Shan, cenouras glaceadas, puré de batata doce roxa e pastinaca, "requeijão" de macadâmia e couve kale massajada.

 



Cozinhar é um processo criativo, que se constrói, alicerça e aprimora. Refinam-se os sentidos e a intuição, por vezes flui naturalmente, acertam-se quantidades, sabores e ingredientes, desde o momento em que as mãos se apoderam da bancada e dos utensílios, outras vezes, porém, somam-se erros e tentativas frustrantes. E é aí que entra o amor. Confecionar pratos e aguçar as papilas tornam-se uma paixão, que nos move e comove. 

Passados tantos anos, decidi voltar. O caminho é hoje mais sereno e o rumo já está esboçado. Trago-vos uma receita que fui criando freneticamente na minha mente, juntando as peças deste puzzle gastronómico numa composição primaveril. Foram horas de envolvência, foco e atenção plena, cada gesto, delicadamente, abraçou os alimentos à procura de inspiração.





Puré de Batata Doce Roxa e Pastinaca


Ingredientes:

- 1 batata doce pequena/média
- 1 pastinaca
- lascas de côco ou côco ralado (1-2 colheres de sopa)
- água qb para adicionar ao côco 
- noz moscada, ralada na hora (1/3-1/2 de noz)
- sal qb
- pimenta qd
- ghee (opcional, acabei por não colocar porque adorei o sabor do puré sem a gordura)



Procedimento:

- cozer a batata doce e a pastinaca em água, com sal.
- num liquidificador, bater o côco (lascas ou ralado) com água, até obter um líquido esbranquiçado homogéneo.
- filtrar a bebida (a polpa de côco que é descartada pode ser utilizada em outras receitas).
- assim que os tubérculos estiverem cozidos, retirar do lume e escorrer; deixar arrefecer para perder o máximo de água possível. 
- colocar os legumes e a bebida vegetal de côco na liquidificadora e homogeneizar até ficar um puré cremoso e sem grumos. 
- adicionar um pouco de ghee caso deseje dar aquele toque mais aveludado ( optei por não usar)
- ralar a noz moscada e mesclar bem no puré para que a mistura incorpore bem o aroma.





"Requeijão" de Macadâmia


Ingredientes:

- 40gr de macadâmia (demolhadas durante pelo menos 8h)
- 1 lima (raspa e sumo)
- 3-4 ramos de manjericão
- 1-2 dentes de alho 
- água qb
- sal qb
- pimenta preta qb



Procedimento:

- num processador juntar todos os ingredientes, as macadâmias demolhadas, lavadas e escorridas, o manjericão, o dente de alho,  a raspa e o sumo de lima, pimenta preta e sal qb. 
- processar, adicionando água se necessário,  até obter uma espécie de requeijão.
- o excesso de água, se existir, pode ser removido filtrango a mistura. 





Cenouras levemente glaceadas



Ingredientes:

- sumo de 1 laranja (ou limão ou toranja ou mustura de citrinos)
- sumo de uma cenoura
- manteiga ghee (uma noz) ou fio de azeite
- cenouras mini, com rama (5-6)


Procedimento:

- lavar bem as cenouras e a rama.
- pode descascar as cenouras ou apenas rasparva pele para retirar imperfeições, se forem biológicas.
- cortar as cenouras na diagonal (o corte fica mais harmonioso e pefmite criar altura no prato)
- aquecer a gordura na sertã, a fogo médio/alto; assim que estiver bem quente adicionar as cenouras e saltear.
- quando começar a ouvir aquele som característica dos legjmes a saltear, adicione um pouco da mistura de sumos e tape com uma tampa. Ter cuidado durante este processo, o açúcar dos sumos rapidamente irá "caramelizar" e a água evaporar, por isso, se necessário, reduzir o lume e ir adicionando sumo para não queimar.
- no final, as cenouras devem ficar al dente e algo caramelizadas, crocantes e doces mas com um toque acido.



Tofu Shan birmanês e Molho "ji ro lu" 




1° passo: Tofu 

Ingredientes:

- 1 taça de farinha de grão de bico
- 3 taças de agua (1,5 para a mistura + 1,5 para a panela)
- curcuma, 1 colher de chá 
- pimenta preta, meia colher de chá 
- cominhos,  1 colher de chá 
- sal qb
- manteiga ghee para untar o pirex

Procedimento:

- numa taça, colocar a farinha de grão de bico e adicionar a água (1,5 copos) e ir misturando até obter uma massa homogénea.
- adicionar o sal, a curcuma, a pimenta preta e os cominhos e voltar a misturar.
- ferver a restante água e reduzir o lume para médio/alto.
- adicionar a massa e misturar até se tornar bem mais espessa e consistente, deverá levar uns 5-8 minutos, dependendo do volume do fogão. 
- verter a massa para a forma untada com ghee e deixar arrefecer a temperatura ambiente.
- cortar aos cubos para cozinhar, assim que estiver bem firme (poderá também cortar em tirar, cubos maiores; também é possível congelar o que sobrar).





2° passo: Molho Ji Ro Lu


Um molho criado a partir das memórias e dos sabores de Java. "Ji ro lu" significa "1, 2, 3" em javanês e talvez tenha sido a frase que mais ouvimos durante toda a viagem. Eram proferidas de sorriso rasgado pelo nosso maravilhoso guia local, o Jamal. Uma pequena homenagem a uma das pessoas mais especiais e bem dispostas que alguma vez conheci! Ji ro lu! Uh la la! 

Ingredientes:

- galanga em pó,  1 colher de chá 
- erva príncipe em pó, uma colher de chá 
- um pedaço de gengibre ralado
- sumo de um limão 
- uma malagueta picada, sem sementes (opcional)
- molho amino côco (excelente alternativa ao molho de soja)


- sementes de sésamo 
- cebolinho picado (ou coentros)
- 100 gr de tofu birmanês Shan aos cubos
- ghee (ou azeite)


Procedimento:

- saltear os cubos de tofu em ghee/azeite quente.
- deixar tostar levemente e adicionar as especiarias em pó, mexer bem e adicionar o sumo de limão.
- deixar apurar os aromas e tostar durante 1-2 minutos.
- adicionar o sumo de limão, deixar encorpar 2-3 minutos.
- regar com amino de côco, deixar apurar mais 1-2 minutos.
- por fim, adicionar o gengibre ralado e a malagueta picada. Mexer e desligar passado 1 minuto. 
- servir salpicado com sementes de sésamo e cebolinho (ou coentros) picados. 








quarta-feira, 28 de abril de 2021

Propósito.

        Quando criei este blog, há uns bons anos atrás, esperava dar-lhe continuidade por muitos e longos anos. O nome foi escolhido cuidadosamente, aos meus 29 anos, esperando que a entrada nos trinta seria, finalmente, a descoberta e a definição de uma nova Maria, mais sustentável, saudável e sensata. A escrita progrediu durante alguns meses, parecia fluir naturalmente, tão naturalmente como a vida que desejava construir e enraizar. Coincidiu com a minha primeira aula de Ashtanga Yoga, que foi, sem dúvida alguma, um dos momentos mais bonitos, luminosos e mágicos da minha vida. Tudo parecia fazer sentido, a procura do meu lugar no Mundo, a absorção de novos conhecimentos, moldando a ciência à natureza, a conquista de novos valores e de novos horizontes, a aceitação das dificuldades e das diferenças, o positivismo como forma de suavizar a vida. 



       A inconstância leva ao desapego das palavras, despimo-nos de preceitos para nos tornarmos vagabundos sem rumo. É aí que o traço abranda, trémulo, deslizando ainda à procura da grafia certa. No entanto, desvanece subitamente e dissipa com ele todas as letras que outrora se mesclavam com prazer e com alguma mestria. Que me falte modéstia, mas não me leves o que os lábios nunca poderão murmurar. Encaro o meu bloqueio criativo solenemente, parto sem destino, mas semeio réstias de esperança ao longo do processo. O corpo e a mente acompanham a apatia da caneta, deixo-me alienar pela angústia existencial, pelo medo do fracasso galopante. Não cuido mais de mim, é todo um processo regressivo e depressivo. Volto atrás, levito sobre a Maria produtiva, entranho-me nas suas vísceras como um parasita e deixo que ela permanece inerte e apagada. 


 


         Há uns meses, a Maria dos meus sonhos despertou, não tão bela adormecida mas repleta de vontade de voltar a viver. Compreendeu que o processo de mudança depende apenas de si e que a força, o foco e a determinação estiveram sempre ao seu alcance, talvez não estivesse a procurar no lugar certo. Desprendeu-se do passado e da dor que tal poderia acarretar, encontrou a sua comunidade, restabeleceu o equilíbrio psíquico, reeducou-se nutricionalmente, curou-se em simbiose com a natureza e o seu amor, criou novos laços de afeto e cultivou a resiliência. Descobriu o seu maior propósito. 






sexta-feira, 16 de abril de 2021

As palavras têm luz.





É indelével a permanência das palavras nas páginas de papel, de um caderno esquecido ou acomodado nas memórias de uma mesinha de cabeceira. É talvez incerta a existência dessas mesmas letras aprumadas e ordenadas, num qualquer lugar virtual deste mundo, onde a mestria inusitada da escrita não é mais do que um carrossel em constante movimento e é talvez por si só, uma menosprezada fuga à massiva e à fluida locomotiva de imagens, publicidade e telegramas, mais facilmente absorvida e esquecida, o "fast food" textual e visual dos nossos dias corridos e corrompidos.

Fluiram os dias e os meses, as emoções, assim como as estações, acomodaram-se às variações dos tempos e dos alentos. O que a mente esboça,  o corpo rasura. Rodopiam intransigentes as palavras soltas, à procura do seu par de dança perfeito. Talvez o encontrem entre sinapses eufóricas, talvez a pulsação se acalme e as frases se aglomerem pomposas e eruditas. 

Esfumaram-se os anos, e com eles, a solenidade da escrita criativa, enebriada pelos goles de polpa linguística, adoçada pelo néctar carnudo das obras primas literárias. 

Adormece a ânsia de exprimir e expremer as vivências, as sonoridades dos pensamentos e o silêncio da inquietude. Guardam-se folhas soltas, num lugar acomodado para o efeito, à espera de um dia lhes voltar a tingir a alma. 

A escrita apenas discorre quando é o âmago da vida que nos guia. Amadurecemos a subtileza dos gestos, purificamos a consciência e a atenção, organizamos a memória e as emoções. 

Livremente, espontaneamente, naturalmente, a mão volta a traçar os textos mais sentidos.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Com gratidão, do paraíso.


Hoje é um daqueles dias cheios. Cheio de energia, cheio de pequenos e simples momentos, cheio de tarefas adiadas e concretizadas, cheio de amor e gratidão. E ainda não acabou. Acordei cedo e como faço há alguns anos, tomei a minha água morna com limão. Fascinada como sou pela ayurveda,(inicio um curso de terapeuta na área este mês, mais uma ótima notícia e objetivo cumprido), é um dos rituais vespertinos que pratico e que mais me revitaliza. Gostaria de iniciar os meus dias com meditação e yoga mas nem sempre o consigo, aliás, tem sido raro, mas estou a tentar voltar a esta rotina. A água serve desta forma para purificar e alcalinizar o organismo. Organizei a casa e a agenda, fiz um smoothie nutritivo, deliciei-me e fui ver o mar. Foram momentos mágicos com o meu fiel amigo. A nossa energia foi absorvida pelas poucas pessoas que nos rodeavam, na sua maioria estrageiros, turistas deste outono tardio em Portugal. A palete de cores mesclava as tonalidades quentes da estação com a pureza e o espírito selvagem da serra, o mar cor de cristal, a areia torrada pela luz do início de tarde e as pequenas pedras polimorfas, dispersas pela orla e humedecidas pela espuma do vaivém do oceano. Escrevo com um aroma difuso a granola. Escrevo enquanto os olhas brilham e o coração se expande. Parece, como a paisagem que me desenhou momentos de brincadeira, que tudo, aos poucos, se acerta. 














quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Diwali e a luz do recomeço.

Foto retirada da internet

Inúmeros acontecimentos maravilhosos ocorrendo, o início de uma fase auspiciosa e criativa, a reconexão profunda com o Eu ávido e fervilhante, a reflexão deleitosa e apaziguante sobre esta viagem interminável e incontornável. O Diwali dualiza o obscuro e a luz, o coração que se entrega devoto e, de outro lado, a essência que se esfuma na ingratidão e na intransigência, negra e seca como as sombras da alma desencontrada. Como o Rio Ganges que discorre místico, embalado por uma história de amor e imundície, culturalmente rica, colorida e sufocante, deixo-me encantar pela magia deste dia. Não sou hindu, mas o meu coração faz-se de hinduísmo e de ternura. Faz-se de entrega e de paixão. Faz-se de sonhos e de feitos. Faz-se ao de leve, em sintonia com a luz que me segue e me aquece o corpo, quando me dedico e me empenho, em mais um dia, em mais um renascer. O Diwali deste ano é especial, segue a minha caminhada, sinto-o a balbuciar-me palavras de afeto e de paz, hoje sei o quão importante és. Não tenho um Ganges para iluminar e perfumar, tenho, isso sim, toda uma vida para te conhecer e contemplar. Irei adormecer e, certamente, nadarei em ti, rodeada pelas pétalas em ti lançadas, imponente no teu brilho ofuscante, levitarei em flor de lótus, cerrando os olhos, serena, purificando as células e os órgãos, rejuvenescendo. Diwali, que bonito dia para recomeçar!

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Desapego.



Tenho o coração cheio. Repleto de energias regeneradoras, que fluem frenéticas num emaranhado de ideias e aspirações. Tenho o coração a transbordar emoção, devoção e gratidão, num gesto efémero e perene de resiliência, finalmente. Os obstáculos sibilam ordens de derrota e eu anseio por me desprender. Desapego. Do ontem e do amanhã. Do pensamento alheio e dos meus medos. Da desconexão e da desorganização. Da sociedade mecânica e da civilização consumista. Levanta os braços em sintonia com as tuas entranhas e respira. Respira solenemente. Deixa que a Mãe Terra deslize pelas células entorpecidas dos teus pés e se funda ao teu Ser. O teu Ser ordeiro e inquietante. Encosta a palma das tuas mãos frágeis ao divino térreo do chão frio. Aquece-lhe a superfície áspera, enquanto sopras ao de leve sobre o ar que te adensa. Sê tu, todos os dias, nesse dia revitalizante, mais um, que te apraz e te saúda destemidamente, enquanto balanças o tronco e te ligas à calidez do piso humedecido pelo esforço da tua prática. Sê audaz, cerra os olhos e deixa o corpo fluir, ir e revir, liberta-te dessa consciência que te prende ao vulgar, segue a tua viagem até ao asana seguinte, segue a viagem da tua mente. Evolui, segue os teus ideais. Respira e tenta outra e outra vez. Não desiste. Não teme. Não. Não te preocupes. Sê feliz, levanta-te e expira. Une as mãos e os pés. Agradece. Samasthiti.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Creme de lentilhas, beterraba e especiarias

            A Francisca, carinhosamente conhecida por Miss Kale, tem um blogue maravilhoso, uma verdadeira inspiração de vida saudável e natural. Os seus artigos são ternura que flui em textos simples mas intensos. Gosto de pessoas assim, que transmitem tanta serenidade e tanta sabedoria entre linhas mescladas de afeto e dedicação.

           A receita que hoje partilho é uma versão mais exótica e aromática. A Índia sempre me fascinou, quer seja pela cultura, pelo hinduismo, pelas cores e sabores, pelo yoga, pela ayurveda, quer seja pela mesma simplicidade e genuidade das suas gentes. Não lhe conheço o seu travo adocicado, picante e quente, mas sinto-lhe o misiticismo de que tanto me narram histórias e sonhos. Em outra vida qualquer, devo ter-lhe pertencido.

(link da receita da Miss Kale: http://misskale.pt/creme-de-beterraba-e-lentilhas/ )

               Rico em ferro e vitamina C (que potencia a absorção do ferro), este creme revigorante para os dias ventosos e frios de outono, é uma fantástica explosão de sabores e nutrientes.



INGREDIENTES

200 gramas de lentilhas castanhas
2 cenouras
1 folha de louro
2 tomates maduros
2 dentes de alho
1 cebola roxa
2 beterrabas pequenas
1 fio de azeite
salsa e coentros para decorar
gengibre em pó
flor de sal qb
curcuma
caril
1 malagueta pequena
amêndoas laminadas para decorar
água


PREPARAÇÃO

Deitar um fio de azeite num tacho. 
Picar a cebola e o alho. Refogar até a cebola ficar translúcida. 
Cortar as cenouras, os tomates e as beterrabas em cubos pequenos. 
Adicionar a folha de louro e os legumes ao refogado. 
Temperar a gosto com sal, gengibre em pó, curcuma, malagueta e caril. 
Deixar apurar uns 5 minutos. 
Adicionar as lentilhas, mexer bem durante alguns minutos e tapar todos os ingredientes com bastante água. 
Deixar cozinhar aproximadamente 30 minutos em lume brando e se necessário adicionar mais água. Retirar o tacho do lume e triturar todos os ingredientes com a varinha mágica.
Torrar as amêndoas. Servir decorado com salsa e coentros picados e as amêndoas laminadas torradas.